Antônio, Rabiola e Chico Remela. Um arquiteto e dois palhaços. Os três, personagens de teatro de grupos que se apresentam na periferia de São Paulo, revelam distintas faces da cidade e dos seus moradores. A Cia Dolores Boca Aberta e a Trupe Lona Preta mostraram essas figuras na 19º Mostra de Teatro Monte Azul. Na favela ou no auditório do centro cultural do bairro, o cenário maior era a própria São Paulo.
Texto: Fernando Cymbaluk
Fotos: Berinjela Filmes
Texto: Fernando Cymbaluk
Fotos: Berinjela Filmes
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| Atriz de "Insônias de Antônio" mexe peças sobre desenho do cenário que representa a cidade de São Paulo |
Assistir uma boa peça de teatro em São Paulo não é para qualquer um. Sobre a área de 1,5 mil km² da gigantesca metrópole, tornou-se lugar comum dizer que a cultura está concentrada nas zonas centrais e nos bairros mais ricos. De fato, como mostram dados da prefeitura, aparelhos culturais como teatro, cinema e sala de espetáculo encontram-se em sua maioria nos bairros centrais, o que dificulta o acesso a atividades artísticas para a enorme população que vive nas periferias. Assistir uma boa peça de teatro não é para qualquer paulistano mesmo. Mas, há vezes que a lógica se inverte. No mês de julho deste ano, só quem cruzou a ponte do rio Pinheiros para o "lado de cá" da cidade - como diria a letra do rap -, ou quem já se encontrava pelas bandas do Jardim Monte Azul, no bairro do Campo Limpo, é que pode acompanhar dez dias e 15 espetáculos da 19º Mostra de Teatro Monte Azul.
Num domingo, dia 31 de julho, pude assistir às duas últimas apresentações da mostra. É com as peças ainda vivas no pensamento que faço, no início deste texto, um juízo de valor. Começo falando sobre "boa peça de teatro". Não sou nenhum especialista no assunto que pudesse apontar virtudes, referências e falhas com facilidade. Mas ao usar o adjetivo "boa", gostaria sim de mostrar a importância das peças que assisti a partir de critérios de qualidade, que se somam ao também importante fato de se fazer arte fora dos centros tradicionais. Em outras palavras, arriscarei mostrar porque assistir a essas peças é imprescindível para quem vive na cidade de São Paulo!
Para classificar como "ótimo" - na verdade, se eu fosse um crítico de “jornalão", essa seria a minha nota - bastaria que tomasse critérios jornalísticos banais, frequentemente utilizados na imprensa, como a reação do público ou a capacidade dos atores de prender a atenção da plateia, cativar, fazer rir e chorar. E o sucesso de público e a catarse teatral foram alcançados nas peças às quais assisti. Tanto no páteo ao lado da quadra da favela Monte Azul, onde a dupla de palhaços Rabiola e Chico Remela, do Circo da Lona Preta, fazia troça com a plateia, que respondia com muita gargalhada às palhaçadas; quanto no anfiteatro do Centro Cultural Monte Azul, onde se apresentou o grupo Dolores Boca Aberta. Seu espetáculo "Insônias de Antônio" foi aplaudido de pé pela plateia - também aplaudida pelos atores - que encheu o espaço em formato de semi-arena.
Mas não é só no sucesso de público e na experiência teatral que está a força dos dois grupos para surpreender e marcar os espectadores. Sua força está também na visão que nos é dada sobre a própria cidade, palco maior, estendido, das apresentação.
Dois palhaços no olho da Metrópole – o picadeiro do “Circo da Lona Preta”
A apresentação da Trupe Lona Preta é um clássico espetáculo de palhaços de circo, com seus peculiares atos de provocação e tiração de sarro. A zoeira começou logo na entrada da favela, quando Rabiola e Chico Remela conclamavam o povo para assistir à peça. Eles brincavam chamando as pessoas pelo nome de celebridades com as quais, de forma caricatural, elas se pareceriam. "Aqui, hoje, só tem gente famosa que veio para o show. Olha a Alcione! E olha quem tá lá, Rabiola!? A Ana Maria Braga!!!", dizia o palhaço Chico Remela para seu colega. Quando a apresentação começa pra valer, tem chute na bunda, balde de água na cara, solos engasgados de saxofone... Até que, no final, a plateia leva um susto, tomando um banho de papel prateado lançado por um dos palhaços com um balde em que se pensava conter água. Para fazer rir, e rir muito, como aconteceu comigo e com quase todos que assistiam, os atores esbanjavam talento.
Ainda assim, não era apenas esquetes circenses que o público encontrava no Circo da Lona Preta. A apresentação foi montada sem muita pré-produção. Os palhaços chegaram e fizeram o espetáculo, no meio da favela, bem no horário do jogo do Corinthians que passava na TV. Talvez a roupa maltrapilha que os dois vestiam já indicasse algo mais que eles tinham para mostrar. Como diz o grupo no panfleto da mostra, o objetivo era fazer rir "atualizando os símbolos do picadeiro circense nas picadilhas do imaginário popular". Gordinho, careca e de touca, malandro e folgado, Rabiola, no fundo, deixava um sentimento de pena e de dor. Talvez por sua ingenuidade diante da inteligência das crianças, a maioria na plateia. Elas não tinham piedade e massacravam o pobre palhaço com intervenções inteligentíssimas, corrigindo asneiras que ele dizia e devolvendo provocações.
Mas Rabiola tinha um algo mais de triste, que contradizia a sua malandragem. Seu jeito de falar era o da gíria suburbana de São Paulo. Suas atitudes evocavam a imagem do ladrão. Por exemplo, quando Chico Remela tira um saxofone dourado de uma maleta, Rabiola pega uma parte dourada do instrumento e sai correndo, até que Chico mostra que aquele objeto tem um valor maior do que o ouro de suas peças, já que se pode fazer música com ele. Rabiola, apesar de se julgar forte, revela toda fraqueza de quem está, na realidade, desamparado na vida. "O 'fio', peguei uma carninha de churrasco ali pra nóis", diz ele. "Como você faz isso, aqui na peça, Rabiola!?", repreende Chico, que pega a carne da mão do amigo e come o suculento pedaço (carne de um churrasco de verdade!). A malandragem de Rabiola parece não ser suficiente para ele lidar com a brutalidade da vida.
Chico Remela, esguio, tocador de saxofone, igualmente malandro, mas notadamente mais esperto que Rabiola, torna-se parceiro da plateia da gozação do amigo. E o que a Trupe da Lona Preta acaba nos apresentando são palhaços com uma dimensão existencial profunda, que lutam para sobreviver numa realidade dura. Eles riem - e fazem rir - com a sua própria miséria. Esse humor melancólico é algo típico dos melhores palhaços, poderíamos dizer. A mensagem dos dois faz lembrar o encantador vagabundo de Charles Chaplin, ou algum marginal sem futuro dos textos de Plínio Marcos – como Tonho e Paco, de “Dois Perdidos Numa Noite Suja”. No Circo da Lona Preta, Rabiola e Chico Remela são os próprios seres da cidade, que perambulam pelas ruas, avenidas e vielas. Eles sobem no picadeiro armado no meio da favela como quem sobe num palco que, mais do que nunca, está no foco da grande metrópole: ali, a imagem da cidade se revela.
A arquitetura do turbilhão – a estrutura de “Insônias de Antônio”
Antes do segundo sinal para o início da peça "Insônias de Antônio", do grupo Dolores Boca Aberta, o público confraternizava nas mesinhas da sala de entrada do Centro Cultural Monte Azul. O bar oferecia vinho e música baixinha, e o ingresso era distribuído de graça. A ressalva dada era que a peça é indicada para maiores de 14 anos. E teve criança que acabou voltando pra casa, sob a gozação dos mais velhos que diziam já ser hora de gente pequena estar na cama.
Dados os dois toques da campainha, enquanto a plateia entra na sala de espetáculo, o protagonista da peça imita o recepcionista de algum tipo de “coquetel de lançamento” - no caso aqui, de um empreendimento imobiliário. Taças de plástico coloridas, que ele segura numa bandeja, são oferecidas para as pessoas. Ao fundo do palco, um guitarrista e um baixista tocam, de maneira suave, "Sampa", de Caetano Veloso, música que tornou-se símbolo de São Paulo. O clima é ameno, de coquetel. Até que o anfitrião, que servia as taças com a ajuda de duas moças, começa a conversar com a plateia, comentando a música de Caetano. "Como é que é mesmo?! Da força da grana que ergue e destrói coisas belas?", pergunta o ator para a banda e para o público. O clima de coquetel é quebrado, e o espectador aos poucos vai sendo levado por um turbilhão de imagens e reflexões sobre a cidade e sobre um arquiteto que nela vive e trabalha.
Não é possível saber ao certo se o comentário sobre “Sampa” é uma crítica à música e ao autor, Caetano Veloso. O protagonista comenta, com um riso irônico: "Caetano é um belo poeta, não?!". Mas quem já ouviu falar um pouco do estilo de teatro do grupo que ali se apresentava, poderia desconfiar que não haveria complacência no tom crítico do espetáculo. O Dolores - assim como a Trupe da Lona Preta - faz um teatro político, cuja intenção é provocar a reflexão sobre questões políticas e sociais que envolvem diretamente a vida dos espectadores. No caso da peça "Insônias de Antônio", o viés é marcadamente marxista, tendo como centro a crítica à acumulação de riquezas, à voracidade do mercado e, evidentemente, às consequências de injustiças e exclusões sociais.
O Dolores conta a história de Antônio, um arquiteto que, sem perceber a sua condição de trabalhador, acaba por ter sua existência tomada pela ambição de tornar-se alguém de importância na roda viva do mercado. Para isso, não tem nenhum escrúpulo em demolir favelas que atrapalham, no meio do caminho, a construção de algum milionário empreendimento imobiliário. Mas Antônio não passa incólume nesse seu trabalho de destruição. Já desempregado, sem a mulher e o filho que o deixaram, com os sonhos de juventude perdidos, ele continua, em pânico, ambicionando tornar-se gerente um dia. Em noites de insônia, remói esta sua condição.
A cidade e a favela estão novamente no centro das atenções. Essa visão é intensificada, de forma surpreendente, pelo cenário montado no palco. Aparentemente, tudo é linha reta. Um quadradão cercado com uma espécie de arame (desses de alarme de condomínio) marca os limites da área de encenação. As bandejas com as taças que eram servidas para a plateia, pretas e quadradas, possuem o mesmo arame do quadrado maior. Um baú retangular preto colocado no centro é onde o arquiteto se deita em suas noites insoniosas. No chão, dentro do quadrado de encenação, está desenhada a cidade. Os traços retos em preto sobre um fundo branco formam a imagem de quarteirões vistos do alto. É como se visualizássemos um pedaço da metrópole, sem suas cores, de um helicóptero, pelo Google Maps, ou do alto de um morro. Além do preto e branco, a única cor que há é o vermelho. Ele está nos fios que cercam os quadrados e num maço de linhas grossas que atravessa, de ponta a ponta, de maneira sinuosa, o desenho da cidade no chão (seria o rio Pinheiros). Enfileirados em microfones, as atrizes coadjuvantes e os dois músicos ficam atrás do quadrado de encenação, um ao lado do outro. Acima deles, há uma placa com a palavra “invisíveis”. Também suspensas no teto estão caixas pretas fechadas. Tudo reto, menos os fios vermelhos e grossos do rio, que se derramam para fora do cenário.
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Ocas em condomínios e a terra em transe – o desenrolar de “Insônias de Antônio”
No teatro político do Dolores, o público poderia esperar que a peça trouxesse respostas e soluções aos problemas que são apontados. Mas não é isso que acontece. Ao contrário, o que a encenação parece sugerir é quão profundo pode chegar o mergulho na problemática do desenvolvimento desenfreado da cidade. O progresso urbano é revelado como algo que isola os cidadãos, provoca ataques nervosos e verdadeiras catástrofes na vida de quem é jogado num mundo competitivo e bruto. Nessa cidade que constrói e destrói, ou que destrói construindo, as pessoas são invisíveis umas para as outras, assim como a supremacia da grana não é percebida por ninguém.
A metáfora de um turbilhão, que utilizei acima, me parece boa. É em turbilhões que o engenheiro Antônio entra sistematicamente. O profissional, o do mundo inescrupuloso do lucro e, por fim, o turbilhão pessoal, em que chega a enlouquecer num ataque neurótico. A trama da peça evolui para um tom cada vez mais frenético. Em dado momento, num devaneio de insônia, Antônio personifica um anti-herói que encerra ao mesmo tempo o comunista incendiário de sua juventude com o empresário individualista, complacente, bombeiro de incêndios, da vida adulta.
Em algo que parece um transe, o protagonista ganha a benção de sua avó índia. Descobrimos que a ancestralidade do arquiteto é de um mundo sem carros e sem trânsito, em que se vivia em ocas. Tal passado é o mesma da cidade. No transe, o arquiteto vira um primitivo-neoliberal, individualista-coletivista. Ele então imagina poder construir condomínios de ocas em que, para todos caberem, os casais se apertariam dormindo em conchinhas. Nesse empreendimento, as pessoas poderiam morar, trabalhar e se divertir sem sair de casa. Contribuiria-se assim para a preservação do meio ambiente e para a diminuição dos congestionamentos. A cidade futura é ao mesmo tempo o ápice do progresso desenfreado e o retorno ao primitivo deturpado. E o ser da cidade não encontra origem nem destino, não sabe qual é a sua cara. No transe de Antônio, é a cidade que está em transe.
A peça toca em questões essenciais da formação e do desenvolvimento da cidade de São Paulo - o índio, a oca, o negócio, as matas, a juventude que se queria incendiária, os movimentos sociais (a mulher de Antônio participa de um movimento de sem-tetos), o automóvel, os condomínios fechados, as favelas. Independentemente de sua mirada marxista (sou um leigo nessa seara, mas preferiria dizer, ou diria também, que há ali uma mirada cubista, que revela diversas faces de uma realidade), não há como a peça não tocar em problemas que perpassam, de alguma maneira, a vida dos espectadores. Como o rio de cordões vermelhos grossos que, num dado momento da encenação, suspensos no ar pelas atrizes, atravessa o arquiteto Antônio.
A cidade como cenário – a vista da rua do lado de fora do teatro
Para finalizar o texto, volto a falar do cenário. O final da peça se dá justamente num movimento cenográfico - que não quero contar para não tirar a graça do leitor que poderá assistir à peça. Digo apenas que é surpreendente e altamente sugestivo. Esse movimento final serve para mostrar que aquilo que acontece no apartamento de Antônio se repete em outros apartamentos no mesmo prédio, no bairro, em toda a cidade - esta é uma estratégia de montagem do teatro político, de mostrar que algo que parece restrito ao âmbito particular acontece também no plano geral, com todas as pessoas. Para ilustrar, penso num exemplo bem aleatório, mas real: o caso trágico da menina Isabella Nardoni, jogada pela janela do apartamento pelo pai e pela madrasta, poderia apenas indicar um problema familiar. Mas também poderia ser sinal de algo que, de forma talvez menos escandalosa mas igualmente trágica, também acontece em outros lares, como a violência contra crianças. Uma pergunta plausível de ser feita é se as causas que levaram a tal fenômeno não seriam gerais.
O cenário de “Insônias de Antônio” apresenta faces da cidade. E o que descobri depois de acabado o último espetáculo da mostra é que as imagens produzidas dentro do teatro podem ser vistas novamente do lado de fora. Já à noite, do alto de uma ladeira que leva a uma grande avenida, a cidade se abre com paredões imensos de prédios, atravessados por viadutos luminosos por onde passam, como vaga-lumes, luzinhas de carros e trens. O céu é alaranjado, e tudo que se vê sob as nuvens é luz e pedra. Ao longe, os carros produzem estrondo metálico. O silêncio da ruinha que desce para a avenida é quebrado pelo som de um triângulo e de uma zabumba vindos de uma casa onde tocavam forró. Neste cenário, em algum apartamento, o arquiteto Antônio passa suas noites de insônia, e Rabiola e Chico Remela, nas suas correrias, sobrevivem e se divertem.





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