quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Três perdidos no foco da cidade

Antônio, Rabiola e Chico Remela. Um arquiteto e dois palhaços. Os três, personagens de teatro de grupos que se apresentam na periferia de São Paulo, revelam distintas faces da cidade e dos seus moradores. A Cia Dolores Boca Aberta e a Trupe Lona Preta mostraram essas figuras na 19º Mostra de Teatro Monte Azul. Na favela ou no auditório do centro cultural do bairro, o cenário maior era a própria São Paulo. 

Texto: Fernando Cymbaluk
Fotos: Berinjela Filmes

Atriz de "Insônias de Antônio" mexe peças sobre desenho do cenário que representa a cidade de São Paulo


Assistir uma boa peça de teatro em São Paulo não é para qualquer um. Sobre a área de 1,5 mil km² da gigantesca metrópole, tornou-se lugar comum dizer que a cultura está concentrada nas zonas centrais e nos bairros mais ricos. De fato, como mostram dados da prefeitura, aparelhos culturais como teatro, cinema e sala de espetáculo encontram-se em sua maioria nos bairros centrais, o que dificulta o acesso a atividades artísticas para a enorme população que vive nas periferias. Assistir uma boa peça de teatro não é para qualquer paulistano mesmo. Mas, há vezes que a lógica se inverte. No mês de julho deste ano, só quem cruzou a ponte do rio Pinheiros para o "lado de cá" da cidade - como diria a letra do rap -, ou quem já se encontrava pelas bandas do Jardim Monte Azul, no bairro do Campo Limpo, é que pode acompanhar dez dias e 15 espetáculos da 19º Mostra de Teatro Monte Azul.

Num domingo, dia 31 de julho, pude assistir às duas últimas apresentações da mostra. É com as peças ainda vivas no pensamento que faço, no início deste texto, um juízo de valor. Começo falando sobre "boa peça de teatro". Não sou nenhum especialista no assunto que pudesse apontar virtudes, referências e falhas com facilidade. Mas ao usar o adjetivo "boa", gostaria sim de mostrar a importância das peças que assisti a partir de critérios de qualidade, que se somam ao também importante fato de se fazer arte fora dos centros tradicionais. Em outras palavras, arriscarei mostrar porque assistir a essas peças é imprescindível para quem vive na cidade de São Paulo!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Caneta, papel, sensibilidade. E um computador com internet

Começo a escrever neste bloco de notas da rua. O curioso é que escrevo de casa. E talvez seja sempre assim. Não necessariamente escrevendo de casa. Mas sempre de algum lugar fechado. Fechado para a rua. De alguma sala, numa cadeira, em cima duma mesa, onde está o computador. Sim, este é um bloco de notas, mas virtual. Poderia levá-lo comigo, e parar para escrever sobre algum flagra do cotidiano ainda imerso no calor dos acontecimentos - fugindo para dentro de um boteco, de dentro do ônibus ou sentado na guia da calçada. Mas ainda não acho que um notebook seja o parceiro ideal nas voltas pelo mundaréu afora. Caneta, bloquinho de papel e sensibilidade é o que é preciso para encarar a rua.

Mas por que então este "notas da rua"? Porque, depois de observado, sentido e anotado, na volta para casa ou no claustro de uma lan house, a história que passou tem que virar a história que vai ser. Da memória e das anotações, a rua flui para o bloco de notas. Serão notas da rua, de observações, reflexões, testemunhos e filosofias de gentes, bichos e coisas das ruas das cidades por onde flano. Principalmente das ruas da cidade em que vivo, São Paulo.